terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Dominó
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sábado, 3 de Outubro de 2009
José Luis Peixoto - Cal
A idade das mãos
Contemplamos alguns momentos da vida de Ana...uma mulher com mais de oitenta anos, mas que nos é apresentada sem idade porque não nos lembramos da verdadeira idade dela e isso porque estamos com ela e estamos com o anjo que a acompanha, com a sua cadela de estimação, a sua burra e o prisioneiro que a surpreende e permanece ao seu lado. Em breves momentos acontece tanta coisa e ao mesmo tempo não acontece quase nada, mas as palavras que são tão simples tornam-se grande e o quase nada transforma-se em muito, transforma-se no suficiente para nos encher os olhos, a imaginação e o coração.
"Havia momentos em que achava que não havia momento nenhum da sua vida fora da prisão em que não tivesse pensado duas vezes desde que entrara na prisão. Passava as noites deitado, a ver um quadrado negro na janela e a esperar. Às vezes, havia uma estrela que brilhava dentro daquele quadrado. Ele acreditava que, se pudesse ver o céu inteiro, conseguiria sempre distinguir aquela estrela. Nascia o dia e depois voltava a noite."
O sorriso dos afogados
Uma pequena viagem entre o agora e o depois, entre o cá e o lá...onde podemos encontrar quem menos esperamos, quem nos sorri e num momento de cumplicidade damo-nos conta da nossa existência e da existência daqueles que existem de uma maneira diferente, daqueles que existem mas não estão presentes porque estão algures num mundo de sossego, de silêncio e tranquilidade...como o fundo do mar ou no fundo de uma barragem.
"Havia apenas mais uma hora de luz naquele dia. Entrei na água. Entrei num novo mundo, diferente da terra das pessoas, diferente do céu dos pássaros. Uma hora seria suficiente. Conheço todos os cantos da barragem. ... O céu da barragem não e infinito. Acaba numa superfície de vidro que não se consegue tocar."
Os velhos
Laços familiares que se prolongam ao longo de gerações. A proximidade, a lonjura, a convivência dos momentos simples, dos momentos em famílias e os defeitos dos membros da família. Longas vidas que caminham por rumos diferentes mas todas com um mesmo destino, a mesma meta em tempos diferentes, mas o sentimento final é o mesmo, é o sentimento de tristeza pela perda de alguém. A perda de alguém que, mesmo com defeitos, era alguém especial...mesmo sendo um velho.
"O meu padrinho novo tinha setenta e tal anos. A minha madrinha também. Não me lembro de o meu padrinho velho ter menos de noventa e tal anos. Eram os velhos. Às vezes, à hora de jantar, o meu pai virava-se para a minha mãe e perguntava: foste ver os velhos? Não era por maldade. Eles eram velhos. A minha madrinha tivera uma filha havia mais de quarenta anos, mas morreu ainda criança. A minha madrinha, ao lume, sentia pena da sua menina morta. Mexia as brasas com a tenaz e falava disso como se chorasse."
A mulher que sonhava
Este texto leva-nos numa pequena viagem entre o mundo real e o mundo sonhado em que os dois mundos se misturam e é como se estivéssemos dentro de um túnel de água com inúmeras curvas em que, ora estamos a falar do real, ora estamos a falar dos sonhos. Sonhos que podem ser bons ou podem ser maus, tudo depende da idade e das circunstâncias da realidade vivida num sonho ou da realidade real que parece ser suavizada apenas pela recordação dos sonhos sonhados.
"Acordou tão feliz. A freira abriu a porta do quarto e atravessou o pequeno corredor entre as camas. Algumas mulheres acordaram logo que esses pequenos ruídos tocaram o silêncio:...Já fora da cama, enquanto vestia o roupão e calçava os chinelos, lembrava-se ainda do sonho que tivera. Lembrava-se do sonho como se sonhasse ainda. Sorria. Tinha sonhado que era nova e que não estava no asilo. Era nova e estava em casa. A mãe chamava-a da cozinha, tinha sonhado. ...O incómodo de ter acordado permanecia. O incómodo de ter sonhado. Num sonho que continuava depois do momento em que acordou, tinha-se visto velha."
O homem que está sentado à porta
Em apenas alguns minutos, muito poucos por acaso, talvez menos que o número de dedos numa mão, parece que somos postos à conversa com um senhor que está sentado na soleira de uma porta. Um senhor que conhecia o pai do Peixoto e que acaba nas páginas do livro escrito pelo filho do Peixoto. No final do texto somos convidados a entrar na casa deste senhor e procurar esse livro que fala dele porque quem lhe diz que ele está num livro, por mais conhecimentos que tenha, não lhe sabe dizer de que se trata esse livro...será que o conseguiremos ajudar? Talvez sim....depende se conseguimos ou não encontrar o tal livro.
"Quem visse o filho do Peixoto aí a correr pelas ruas com os outros cachopos nunca poderia imaginar que, um dia, ele ainda havia de se lembrar de escrever sobre mim num livro. Nunca ninguém consegue compreender as voltas todas do mundo. Mas, mesmo assim gostava de saber melhor porque é que ele escreveu sobre mim....Mas já que aqui estás, será que podias ler-me um bocado do livro e explicar-me o que está lá escrito?"
O grande amor do mudo
Este texto levou-me por momentos ao mundo que José Luís Peixoto nos deu a conhecer em Nenhum Olhar, aliás, até agora, em Cal, quase que se pode dizer que as personagens destas estórias vivem muitos próximas das que vimos em Nenhum Olhar, é um ambiente que já conhecemos. Quase no final deste texto pensava que íamos conhecer um pouco melhor a Ana que tinha uma cadela, uma burra e um anjo que a acompanhava, mas afinal conhecemos uma outra pessoa, que também tem um passado peculiar...uma vida que se perdeu na esperança de reencontrar alguém que desapareceu "misteriosamente"e que se transformou numa flor debaixo de uma azinheira.
"Eu cheguei a conhecer o mudo. Ainda não andava na escola. Não sei se já tinha cinco anos. Subia e descia o muro do quintal. As minhas mãos cabiam nos buracos pequenos do muro. Os meus pés cabiam nas curvas ténues da cal. ... Quando chegou Março nasceram flores nos campos. Debaixo da azinheira nasceu uma única flor. Era uma flor bravia. As raízes dessa flor atravessavam a terra, eram longas, e entravam dentro do corpo do mudo. Aquilo que tinha sido a vida do mudo entrava por essas raízes e corria dentro dessa flor. Ninguém sabia, mas o mudo era essa flor."
Febre
Este foi um texto que depois de ler me deixou a pensar que há alturas na nossa vida em que nada faz sentido, em que tudo perde a cor, em que tudo perde a sua razão e é aí que surge a febre, é aí que tudo fica amarelo, doentio, monótono e desprovido de sentido. É nessa febre que se espera que alguém nos bata à porta para nos levar a algum lado...será essa viagem a salvação ou será essa a viagem final?!
"Sentava-se no sofá, pousava as mãos nas pernas e olhava a escuridão. E até a escuridão era amarela. Mais asfixiante ainda do que a casa, porque a escuridão era infinita e de um amarelo sem formas. No início, instintivamente, fechava os olhos, e dentro do seu olhar fechado, mesmo o que nada via era amarelo. ... Antes de dormir, tomava sempre um chá de casca de limão e, chegou mesmo a pensar que pudesse ser esse hábito aparentemente inocente que lhe turvasse a vista de amarelo."
O dia de anos
Novamente moldado à vida da senhora de setenta e dois anos que aparece várias vezes neste livro, surgem os planos para um dia de aniversário. Aquele dia que alguns esperam com grande ansiedade, quer pela vontade de festejar, quer pela vontade de simplesmente ver esse dia passar depressa para não pensar mais nisso por mais 11 meses e alguns dias. E como do inesperado surge grandes momentos, grandes memórias, surgem também desilusões e momentos de transtorno emocional em que um dia especial se torna num dia triste e sem sentido, um dia de solidão.
"Estava a olhar para os cachopos do carrocel e a comer a fartura aos poucos para durar muito, quando apareceram dois homens a cumprimentarem o meu marido. Abalaram os três. ... Às vezes, assomava-me à porta da venda e o meu marido estava sempre encostado ao balcão a beber um copo meio de vinho tinto. ... No chão, ficaram só as caixas de sapatos vazias e os papéis arrastados por uma aragem miúda. Ficou só a noite. ... Olhei a noite. ... Tinha feito setenta e dois anos."
O último dia de todos os Verões
Este texto narra uma história triste, o relato de um simples dia de trabalho, no campo, onde estão presentes o pai e os seus dois filhos. Aquilo que parecia ser uma rotina, como aquela que enfrentamos todos os dias e da qual muitas vezes reclamamos por estarmos fartos, aborrecidos, naquele dia ganhou outros contornos e é quanto menos se espera que as coisas podem acontecer. Após determinados acontecimentos, não temos outra solução senão adaptar a nossa vida, os nossos dias, as nossas memórias, à nova realidade, à nova rotina, que pode até ser a mesma, mas devido a um pequeno pormenor, pode ser totalmente diferente!"Os homens acertavam com os machados nos sobreiros e arrancávam-lhes pranchas de cortiça como se lhes arrancassem a pele. O tronco das árvores ficava mais claro, ficava liso e tinha pequenas gotas de água. Quando o pai passava a palma da mão por esses troncos, fechava os olhos, recolhia algumas gostas de água e passava-as pelo rosto. Nessa tarde, de repente, como um lençol, uma camada fina de céu pousou sobre os campos. Ninguém conseguiu distinguir esse momento exacto; no entanto toda a gente soube ver que a terra ficou mais fresca, os pássaros apareceram, o vulto luminoso da lua tornou-se nítido no céu.Foi depois desse momento invisível que ..."
Peça de Teatro: "À Manhã"
Uma breve peça de teatro onde encontramos uma mão cheia de personagens, umas mais presentes que outras, mas todas elas relacionadas. Relacionadas entre si através da amizade, através de laços familiares ou relações amorosas. Uma escrita simples com alguns termos do quotidiano pelo meio, provavelmente típicos da terra natural do autor do texto, mas no geral é uma linguagem muito própria. As personagens não diferem muito das que encontramos ao longo de todo o livro, não esquecendo Olga, que tem Alzheimer ou algo do género...e por isso ela vai viajando entre o real e o imaginário. Um imaginário que de certa forma é mais real do que a realidade que devia ser o mundo real dela. Infelizmente o cinismo, forçado ou intencional, é uma das características que fazem parte do ser humano, daquelas que ninguém se deve gabar.
"Macha: Então pois. Mas os cachopos estão muito finos. Um dia estava lá a entreter-me com uma malha, até estava a fazer um cachecol para o Kevém, o marido da minha Lucréria chama-se Kévem...
Ti Irininha: Kévem?
Macha: É. Kévem. É os nomes ingleses que eles para lá têm. Mas estava entretida com a malha e entrou o mais pequeno, que está agora como nove anos, e andava só de roda de mim. Ora, a irmã estava na sala com o namorado e eu mandei-o para lá. Nem um minuto lá ficou. Perguntei-lhe porque é que voltou tão depressa e disse-me: ah, avó então não vê que eles estão no sexy.Ti Irininha: No sexy? Já a formiga tem catarro."
Ver a minha avó
Como o próprio título do texto indica, encontramos neste texto uma visita a uma avó, um olhar sobre vários aspectos da vida da avó do autor do texto. Quem era ela? O seu modo de vida simples, os gestos que já deixaram de ter importância, e, no entanto, são um conjunto de pequenas acções que marcam e enchem a memória. Que guardam os traços de uma avó, pequenos detalhes que podem ser comuns a muitos de nós. Um texto que deixa um sentimento de nostalgia a vaguear sobre nós.
"À noite, ela liga a televisão a preto e branco. Aborrece-se com filmes porque não é capaz de ler as legendas. Pode ver a telenovela, mas a não lhe dar suficiente atenção, a esquecer os nomes e a suspeitar da história. Ela sabe que não é real. As lágrimas da rapariga triste são feitas de cera, ou são fingidas, o que é a mesma coisa. A rapariga triste da televisão não mora em nenhuma rua da nossa vila."A mulher de negro
Muitas vezes sentimos uma angústia que cresce em nós, e é como alguém que encontrássemos dentro de nós quando iniciamos a procura de uma solução, de uma voz que nos diga o que fazer e é como se fosse essa, a pessoa a quem éramos capazes de contar tudo, fossemos capazes de dizer tudo o que queríamos dizer, sem medos, sem precauções, simplesmente dizer tudo. É essa a mulher de negro que talvez possamos encontrar nesse texto, uma pessoa frágil, que habita no interior de uma floresta, da nossa floresta, e que se apresenta como uma confidente, como uma fuga à luz do dia, uma fuga ao ruído de um mundo aberto e exposto e por vezes inseguro e perigoso.
"Ao entrar na floresta, o guiador a balançar nas minhas mãos, afastava-me de tudo o que era a minha casa, os meus amigos, os lugares onde pensava que me podia sentir seguro. A tarde tornara-se fresca no meu corpo sob as roupas: a camisola branca, as calças. Conhecia menos o meu corpo sob as roupas do que conhecia as roupas. Conhecia as roupas do tempo que passaram guardadas em gavetas, conhecia-as de quando as dobrei e guardei em gavetas, quando as escolhi e comprei, e , nesse dia, quando as escolhi por querer vesti-las.
...
A palma da sua mão tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, cm todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua mão a envolverem os meus dedos. Não me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu."
A viúva junto ao rio
Um texto bonito, no entanto, é um dos mais tristes que encontramos em todo o livro. É como o passar de uma vida à frente dos olhos e a impossibilidade de fazer o que quer que seja para a agarrar. Estar tão perto de algo, prestes a consegui-lo e há algo que o impede. É a sensação que temos por vezes em diversas etapas da nossa vida, independentemente do contexto em que se possa inserir. Teremos forças para acreditar que nunca é tarde demais?! E que mesmo parecendo tarde ainda dá tempo de lutar e perseguir os sonhos e objectivos?! Talvez seja bom acreditar que sim.
"Hoje, estou sentada na margem do rio e Deus está snetado ao meu lado. Há quarenta anos, era de manhã. Há quarenta anos, o rio era exactamente igual. Estou velha. Também Deus está velho. Sentamo-nos juntos e pensamos. O tempo é mais leve. Nem eu, nem Deus esperamos nada. Mergulho os dedos e a água é fresca. Ouço as palavras serenas que a água me diz. Os meus cabelos já não são longos e negros."
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sexta-feira, 21 de Agosto de 2009
Mergulho no ar
Vou a correr com a minha velocidade máxima e através do impulso que consigo dar ao meu corpo, lanço-me no ar e mergulho. Abro os meus braços e rasgo o vento que tenta deter-me sem sucesso. Sinto o tempo a passar por mim como uma flecha que sai de um arco, abro as mãos para o agarrar, mas ele é tão invisível quanto o vento e intocável como a linha do horizonte. É um sentir sem ter tempo para sentir, é sentir as coisas a alta velocidade, é estar a chegar a algum lado depressa mesmo sem saber ao certo o que lá está, lá em cima ou lá em baixo, qualquer que seja a direcção do meu voo.
Contínuo na minha viagem vertiginosa... Ultimamente ela tem se tornado mais intensa e têm sido tantas as pequenas coisas que, nem mesmo sendo pequenas, deixam-me a pensar, deixam-me a pensar no antes e depois, e deixam-me a pensar porque esses antes e depois não são antes e depois como a diferença que um corte de cabelo pode fazer. São antes e depois como uma laranja com casca e essa mesma laranja já sem casca... não vai deixar de ser laranja, mas será diferente. É uma viagem cujo resultado será algo novo, será um novo aprender a andar, aprender a andar nos caminhos da vida [diferentes dos que já conheço ou julgo conhecer], uma adaptação a um estilo de vida diferente, novas rotinas, novas perspectivas, novas situações, novas responsabilidades, um novo eu que não será diferente, será apenas eu, mas com outra experiência de vida.
Mas como todos nós sabemos, ao longo das nossas vidas encontramos inúmeros desafios que tentamos sempre superar e é na superação desses desafios que nos sentimos crescer, que sentimos estar a caminhar em alguma direcção e a chegar a algum lado, qualquer que seja a ideia que temos do que está no nosso destino.
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sábado, 15 de Agosto de 2009
Memórias no papel
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domingo, 9 de Agosto de 2009
Contagens descrescentes
Venho aqui marcar presença neste mês de Agosto, mês de férias para muitos, para outros é o mês e regresso ao trabalho ou então o mês que antecede o tão esperado período de férias. Por esse, e outros motivos de ordem maior, também pode ser considerado o mês em que entra em fase de aceleração, diversas contagens decrescentes, como se estivesse descalço numa rampa molhada e cheia de limos ou como se tudo estivesse associado à sua própria ampulheta. Ir aqui, ir acolá, fazer isso, fazer aquilo, pensar nas hipóteses, considerar as mudanças, preparar para o desconhecido, viver momentos de ansiedade, momentos de alegria momentânea resultante de fragmentos de mini-sonhos que piscam de quando em quando na nossa mente como se fossem o flash de uma máquina fotográfica. Ao mesmo tempo que o a areia vai derramando e as datas limites vão sendo alcançadas, tenta-se viver o dia-a-dia da forma mais normal possível, como o equilíbrio necessário e indispensável.
Infelizmente também para este texto havia um tempo limite para o terminar e porque os minutos e segundos já se esgotaram irei colocar agora um ponto final neste texto e partir para a próxima meta, já que ao mesmo tempo que se alcança uma muitas vezes deixamos duas ou três para trás.
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sábado, 18 de Julho de 2009
Philippe Jaroussky
Naqueles momentos senti-me minúsculo como uma formiga, insignificante como um fio de cabelo e transparente como um vidro, mas mesmo assim senti-me vivo! Senti-me vivo porque o que me fazia sentir pequeno e invisível não era aquilo que me fazia sentir bem, não era aquilo que faz parte do grupos de coisas que para mim constituem motivos, razões, âncoras para permanecer nos portos da vida.
Por vezes, basta estar perante algo que me leva para um outro lugar, tão distante e tão próximo das portas do mundo cujo chão piso todos os dias, um lugar físico e ao mesmo tempo um lugar que não existe, mas que se sente e se vive. Vive-se porque naquele momento somos capazes de acreditar, valorizar e transformar o talento dos outros em algo que nos dá prazer, algo que nos enche a alma e nos fazem sentir gigantes. Gigantes porque precisamos de todo esse espaço para armazenar aqueles sentimentos que nos enchem e se expandem durante aqueles momentos. Mesmo que sejam apenas por uns minutos ou um par de horas...é satisfatório...o tempo que for possível estar presente e apreciar esse mundo à parte é satisfatório.
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quinta-feira, 16 de Julho de 2009
Super-heróis...liberdade
E se fossemos todos super heróis?! Personagens com características fora do normal?! Qual seria o poder escolhido por cada um de nós? Para que fins usaríamos os nossos poderes ou as nossas características especiais? Para fazer o que os super heróis da TV fazem? Ou será que teríamos outros objectivos?
Por estarmos fartos da monotonia da realidade do nosso mundo, e devido à falta de incentivos pessoais, globais e de todos os outro tipos possíveis, damos asas à imaginação e damos igualmente uso ao que, os outros como nós, criam. Refugiamo-nos momentaneamente em histórias, que até podem ter como base algo nosso, mas que nos encantam por terem elementos que estão fora do nosso alcance e do nosso domínio, e vivemos fantasias que nos fazem esquecer o real. Nesses momentos a liberdade do imaginário enche-nos a alma e acreditamos na felicidade, no amor, no extraordinário, no ideal, em tudo aquilo que muitas vezes se torna invisível na nossa existência que é frequentemente questionada e desvalorizada. Existência cuja razão se agride diariamente, e cujas justificações são provenientes de pequenos grãos que nos alimentam por serem a magia da nossa fantasia real e nos fazem elevar porque nos tornamos leves. Somos tão leves que conseguimos voar nesses esporádicos momentos e quanto estamos no ar, vemos tudo sob outra perspectiva, não há limites, somos livres.
Por falar em limites e liberdade…o que devem fazer aquelas pessoas cujas amizades são criticadas devido aos preconceitos que as pessoas têm?! Já sabemos que a discriminação é um facto que ainda vai perdurar por muitos anos e décadas entre nós, mas quando há situações de tal forma próximas de nós, é inevitável levantar esse tipo de questões. Mas como resposta muito simples poderia dizer que o importante é a definição de amizade, a partilha, uma relação sem interesses escondidos nas palavras ou sentimentos partilhados. Todavia não é esta a definição que se esconde nas mentes distorcidas de uma quota-parte das pessoas que fazem parte do grupo a que pertencemos sem pertencer, a sociedade.
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terça-feira, 7 de Julho de 2009
Emoções
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segunda-feira, 6 de Julho de 2009
Do cheio ao vazio
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sexta-feira, 26 de Junho de 2009
Naquela Janela - III
"O medo de não saber medir o poder das palavras ou o poder do silêncio quando aplicados no momento errado, o medo de não saber reagir...o medo de uma janela, daquela janela e daquele momento".
Só lhe passava pela cabeça que, naquele momento, ela pudesse desistir de si, desistir da sua vida e de tudo, porque vê-la sentada naquela janela era o mesmo que vê-la caminhar em direcção ao desconhecido, na direcção do abismo. Era isso que indicavam os olhos dela. A sua cara pintada com um rasto de lágrimas que não eram mais do que as suas pegadas ao longo daquela caminhada. Ele olhava para ela e tentava ir ao encontro dela através do olhar, mas as lágrimas secavam tão depressa com o vento que soprava pela janela e levava consigo o rasto das pegadas. Mas mesmo assim ele não desistia de ir ao encontro dela, ao encontro do epicentro de toda a angústia que ela poderia sentir naquele momento.
Ele sabia que aquele era o momento em que se apercebera que os seus actos não eram simples gestos e as suas palavras não eram simples sons. A partir do momento que as acções dele seriam reflectidas em alguém e nos actos de alguém, as coisas, por mais simples que pudessem ser, ganhavam outros contornos. Foi assim que ele viu que não estava sozinho no mundo como até então pensara estar. Por mais insignificante que fosse a presença dele, por mais silenciosas que fossem as suas palavras, por mais imóvel que ele permanecesse na esperança de não sentir o mundo, havia sempre algo que mudava, algo que sofreria as consequências disso. Com esse pensamento ele sentiu o medo que lhe podiam causar as acções fruto do instinto, resultantes de uma reacção espontânea, não pensada ou avaliada, e talvez o que se estava a passar naquela janela fosse o resultado de uma longa equação onde as variáveis seriam sentimentos, encontros, desencontros, certezas, dúvidas. Resultado esse que ele ainda não conseguira alcançar.
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