Terça-feira, 30 de Abril de 2013

A música - Pintura

Um som ou alguma coisa verdadeira a existir. A nascer, a crescer, a viver. Uma coisa verdadeira e infinitamente bela a agitar-se no ar do salão. Um lamento. Uma angústia a transformar-se de repente numa alegria grande. A caminhar, a correr, a dançar.
Um sonho bom a transformar-se numa alegria branda.
Glória e espanto. Um som a existir muito. O ar do salão cheio de um milagre invisível. Um segredo profundo a atravessar-nos. Cores. Nenhuma cor. Água, silêncio. Um som ou alguma coisa verdadeira. Tudo isto e nada disto era a música.

Excerto de "Uma casa na Escuridão" de 
José Luís Peixoto e que em parte serviu de base para este trabalho.

A Música - 2012
Óleo sobre Tela
50x60cm

Quinta-feira, 18 de Abril de 2013

Livros e Pintura

Nas últimas semanas alguns do meus livros não tiveram sossego e isso poderia acontecer porque estaria a lê-los ou relê-los....mas nesse caso o propósito foi outro e teve a ver com o facto de eu ter que criar 3 telas para participar numa exposição colectiva de pintura (embora diga-se que uma delas, das telas, é que efectivamente tenha dado mais incómodo aos meus livros, pois ainda foram uns quantos aqueles que tiveram de sair do seu cantinho habitual, do seu quase eterno sossego, e passarem a estar espalhados por aqui e por acolá, correndo o risco de serem pincelados ou manchados de tinta ou outro produto envolvido no processo). Dizem que às vezes é preciso fazer sacrifícios...talvez esse tenha sido o sacrifício deles.

As ideias surgidas à volta do tema "o Livro" foram muitas, contudo, devido relativa falta de tempo (digo relativa porque muitas vezes essa questão é mesmo relativa), não me consegui "esticar" tanto quanto gostaria porque sei que se o tentasse fazer, corria o risco de fazer algum movimento mais brusco e sofrer alguma rotura no meu sistema anímico e por conseguinte não conseguir terminar as obras (ou pinturas, fica ao vosso critério o nome a dar a essas telas) e falhar o compromisso de estar presente na exposição. Tal como os próprios livros em si, o tema também é praticamente infinito e por isso creio que surgirão mais oportunidade de o voltar a explorar e assim por em prática algumas das ideias que ficaram pelo caminho ou arrumadas na gaveta.    

"Quem vê capas..." 2013, óleo sobre tela

"A Força de um livro" 2013, técnica mista sobre tela


"Transcendência do livro" 2013, óleo sobre tela

Segunda-feira, 8 de Abril de 2013

Na hora de por a mesa...a saudade

Na hora de por a mesa....Título de um texto da autoria de José Luís Peixoto que me vem muitas vezes ao pensamento e isso acontece por diversas razões. Uma delas é a relação entre a aparente simplicidade do texto e aquilo que o próprio texto transmite. Podemos ser mais ou menos do que cinco pessoas na hora de por a mesa, mas certamente em algum determinado momento da nossa vida acabamos por sentir a falta de qualquer uma dessas pessoas quando elas, por algum motivo, já não estão presentes. Sentimos a falta de partilhar momentos com essas pessoas, de comunicar com elas. No texto temos o exemplo do "sentar à mesa", algo que representa um momento de partilha familiar que nos dias de hoje se calhar se torna cada vez  menos frequente e em muitos casos é também o único momento do dia em que uma família consegue estar toda junta e partilhar certos aspectos ou momentos das suas vidas, nem que seja apenas por alguns minutos. Nas restantes horas do dia, ou estão fora de casa ou estão espalhados pela casa como brinquedos de uma criança. Voltando ao momento base daquele texto, o por a mesa ou sentar à mesa, também pode significar todo um conjunto de experiências/vivências que permitam fortalecer ou manter os nossos laços com as pessoas que significam algo para nós, pessoas essas que mais cedo ou mais tarde, quando já cá não estão, nos irão lembrar que existe um vazio, que existe a saudade. Nesse momento iremos pensar no tempo que tem passado, nos momentos que não aproveitamos e que não se partilhou nada, iremos pensar nas formas possíveis de conseguir recuperar algum desse tempo passado (e que podemos considerar que foi tempo desperdiçado), pois sabemos que nesse aspecto, o tempo que já lá vai, já se foi e não volta. 

Domingo, 30 de Setembro de 2012

Tempestade



Dentro de mim existe uma tempestade de sentimentos que tenho dificuldades em cataloga-los por serem tão contraditórios quando comparados uns com os outros. Uma revolução que me deixa desnorteado e sem saber o que pensar porque a agitação é de tal forma grande que a calma necessária para articular qualquer pensamento é escassa. Preferia obviamente estar a viver uma espécie de euforia no sentido positivo daquilo que podemos considerar uma euforia, mas infelizmente não é esse tipo de intempérie que percorre quem eu sou nesses últimos tempos.
Quero sentir alegria, felicidade, esperança (quem não queria nos tempos que correm?!), mas é difícil encontrar os motivos que justifiquem esses estados de espírito a longo prazo ou de forma duradoura. Ao invés disso sinto uma dormência de vontades que se transforma numa espécie de raiva que por sua vez se transforma numa espécie de inutilidade, incapacidade de reagir, de lutar e reivindicar qualquer coisa que nem eu próprio percebo bem o quê porque não sei qual poderia ser o ponto de partida...um sentimento de revolta, de angústia, uma quietude exterior que atiça a tempestade interior, parecendo agir como se colocasse mais lenha na fogueira onde me sinto arder cada dia que passa.
Se me perguntassem se acredito em milagres, mostrar-me ia reticente porque até testemunhar algum (sendo que entendo por milagre algo que aconteça e que realmente seja mesmo algo totalmente inesperado e imensamente positivo, capaz de solucionar certos problemas que até ao momento não estão conseguindo ser solucionados) não poderia dizer que acredito e ao mesmo tempo não poderia dizer que não acredito porque  lá no fundo existe um receio de dizer que não acredito, de dizer que eles não possam mesmo existir, pois existe também uma réstia muito ínfima de esperança de que algo menos mal ainda possa acontecer. Como se ainda pudesse haver alguma luz ao fundo do túnel. A ampulheta está virada do avesso há já muito tempo e faço um esforço tremendo para não ver os últimos grãos de areia caírem sobre o monte que se tem vindo a formar lentamente e rapidamente, como se fosse uma ameaça, como se fosse um tempo de vida que se está a esgotar. Tenho receio do momento em que irei testemunhar o último grão de areia a cair, o momento em que todos saberemos que acabou, que já não há mais nada a fazer. O momento em que me sentirei mais inútil, mais culpado, mais estúpido, o momento em que, mais do que agora mesmo, irei querer chorar palavras que não digo, palavras que se transformam em realidade nos pesadelos das horas nocturnas, sonhos agridoces que me fazem acordar e mirar as paredes escuras, o tecto silencioso, até a minha mente cair novamente no sonho na esperança de que outras imagens apareçam.

Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

Nadar

Tento nadar neste mar revolto ao mesmo tempo que sinto o medo tomar conta de mim e impede-me de aventurar muito nas suas águas. É como se me escondesse atrás de uma rocha à espera que a tempestade passe e as ondas se desvaneçam suavemente como se adormecessem num manto de agua ou fizessem as pazes com as rochas da encosta. 
Quero sair dessa espécie de bóia de salvação e aventurar-me nessas águas onde podem haver outras pessoas que também se tentam manter à superfície. Chego a pensar em cobardia, cobardia de enfrentar a tempestade, as ondas, a fúria do desconhecido, o receio das consequências. Entretanto tenho noção que a minha segurança pode significar a incapacidade de ajudar quem também se encontra nessas águas incertas, imprevisíveis e geladas. Há vento, há chuva e há medo, há incerteza e há o tempo que também não pára e não espera por ninguém e o som, o som é o assobio do vento e é como um sussurro que me diz ou pretende dizer que há que tomar decisões. Será esse vento verdadeiro, será esse sussurro a voz do bem ou a voz do mal? Quanto mais tempo terei para me manter aqui a nadar? No meio deste nevoeiro não consigo discernir com nitidez quem se encontra por aqui e quanto mais tempo terei para partir em sua ajuda e que tipo de ajuda poderá ser essa? Será que eu é que preciso de ser ajudado? Será que essa é a opinião de quem também está neste mar e inconscientemente me procura? Não sei, o sussurro do vento não mencionada nada acerca disso.

Sexta-feira, 15 de Junho de 2012

Retroceder

Sei que não são poucas as vezes e que também não sou o único...
a desejar conseguir, de algum modo, poder voltar atrás no tempo, dar um pulo ao passado, dar um pulo a qualquer momento que pudesse marcar a diferença no presente e por conseguinte no futuro que se aproxima. Voltar atrás para poder alterar alguma decisão que por sua vez seria responsável por alterar o agora. Diversas são as razões que muitas vezes nos fazem querer retroceder, mas infelizmente não podemos fazer isso porque as decisões só podem ser tomadas uma vez porque elas têm o seu tempo e o tempo presente onde acontecem as coisas, o agora, esse instante, que só acontece uma vez, e é tão ínfimo que estas minhas palavras não são capazes de o acompanhar, porque desde o momento em que elas surgiram na minha cabeça, até ao momento em que já saíram dos meus dedos e apareceram aqui neste ecrã, já se passaram tantos segundos, tantos instantes, tantos "agoras" que já são parte do passado. E mesmo após esses momentos, e provavelmente nas próximas horas ou dias, vou continuar a querer regressar não sei para onde nem para quando, como se aquilo que vemos acontecer na ficção, pudesse também ser parte do real.
Talvez não valha a pena estar a envolver o presente na imaginação e memórias do passado porque o resultado disso é um sentimento que dá cabo de mim, é um sentimento que, na falta de opções, me faz levar a mão à cabeça e com o polegar e o indicador, massajar as têmporas durante alguns momentos... como se isso pudesse suavizar os meus pensamentos.
Outra coisa que também sei, é que não sou o único a ter de enfrentar problemas, todos nós estamos rodeados deles, embora uns sejam mais graves do que outros. A forma como os enfrentamos também tem influência na sua gravidade e na sua resolução. No entanto, é difícil quando não sabemos como os resolver e quando parece que não há ninguém com quem se possa contar para nos ajudar na resolução dos mesmos, quando sabemos que até podíamos falar acerca deles em jeito de desabafo, para um ligeiro [ou não tão ligeiro] alivio, mas o receio e vergonha de incomodar outras pessoas com os nossos problemas, leva-nos muitas vezes a ter de suportar essa sensação de se estar num beco sem saída.


Felizmente existem músicas como a que hoje deixo aqui.



Sexta-feira, 8 de Junho de 2012

B-Day



Este é, ou foi, mais uma vez aquele dia que quero que chegue, que quero que não chegue, que quero que dure e que ao mesmo tempo quero que passe depressa. Um misto de sentimentos e pensamentos que driblam na minha cabeça e que muitas vezes se perdem pelas linhas que contornam a realidade.
Creio que seja normal para muitas pessoas esta invasão de contradições e que este dia seja um dia que dá mais para reflectir do que para festejar ou comemorar. Não se trata de se ser ingrato por se ignorar que se deve celebrar um aniversário, celebrar o facto de se completar mais um ano de vida, sobretudo se estamos minimamente bem de saúde, no entanto, cada qual tem a sua forma de interpretar o seu mundo e há certas coisas que por vezes nos dificultam a tarefa de tornar este dia num dia especial porque sabemos que é quase só mais um dia e que amanhã existirão problemas que continuarão a estar por resolver. Gostava de conseguir pensar de forma diferente e de certa forma vou tentando fazer isso, que é, tentar aproveitar os momentos sem as sombras dos problemas, mas há sempre aquele "switch" que parece que activa um sino que ressoa nos meus ouvidos e me faz lembrar que tudo é temporário.


A ironia do dia: Não conseguir atender a chamada do único amigo que se deu ao trabalho de ligar para desejar um feliz aniversário. De qualquer forma a intenção esteve presente e como costumam dizer, é isso que conta. Há que distinguir uma chamada de um post nas redes sociais, não querendo obviamente desvalorizar por completo esta segunda via claro. 
Espero daqui a 365 dias poder estar aqui novamente a finalizar os pensamentos do dia. 

Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

da Noite, o Dia!


Inúmeras vezes me questiono acerca desse vosso vaguear nocturno pelas ruas de uma vila vazia, muitas vezes fria, silenciosamente adormecida na noite e num sono esporadicamente interrompido pelo barulho de alguma viatura que circula vindo de algures e dirigindo-se para qualquer sítio. Talvez vocês dois façam da noite o vosso dia e essa parece-me uma suposição relativamente fácil de se fazer e tudo o resto permanece, pelo menos para mim, como uma espécie de mistério. O desconhecido é para nós como um mistério. 
Talvez eu esteja a criar ideias que incidem sobre algo normal. Algo normal como sair à noite. E se calhar estou a fazer isso algo mais estranho ou incomum do que realmente o é.
Não conheço o vosso passado, nem tão pouco o vosso presente ou futuro, mas não consigo deixar de me questionar acerca dessa vossa opção de abandonar os vossos lares e vir andar sem destino pelas ruas desta vila. Sei que a noite consegue ser mágica e despertar em nós sentimentos que durante o dia estão entranhados em nós e não sabem como florescer. Chega a noite e cada um de vós sai da sua casa e começa a sua lida nocturna. Muitas vezes acabam por se encontrar e partilham essa vossa caminhada, esse vosso passeio. Nos vossos lares devem deixar apenas o silêncio à espera do vosso regresso.
Se existissem vampiros fora dos filmes, séries e livros, podia acreditar que vocês fizessem parte deles e a julgar pelas vossas idades, idades de uma longa vida, podiam muito bem ser os chefes da quadrilha. Mas como humanos que são, e como pessoas com uma idade cujos anos estão à vista de quem vos vê, não é difícil ver que atrás de vós está um longo percurso e essa é também uma das razões que de certa forma aguça a minha curiosidade. Por vezes há uma vontade de vos abordar e trocar algumas (ou muitas) palavras, certamente muitas questões para as quais gostaria de obter respostas.
Quem são vocês? Sempre viveram aqui nesta vila? Onde estão as vossas famílias? Porque vivem sozinhos? Porque é que optam por sair quase exclusivamente à noite?
A ele, perguntaria porque razão ele parece estar constantemente à procura de algo nas ruas da vila e faria essa questão porque é costume vê-lo explorar com o olhar cada centímetro quadrado do chão. Obviamente que isso dá origem a mais questões. Será que ele perdeu alguma e agora não dá descanso à sua alma até a conseguir achar? O que é que ele pensar conseguir encontrar no escuro dessas ruas nocturnas? Há quanto tempo dedicas as noites da tua vida a essa busca que, mesmo em noites frias e de chuva, não parece haver descanso?
A ela, perguntaria porque razão ela opta por viver sozinha numa casa degradada que, a julgar pelo exterior, não possui condições mínimas para ser habitada. Será que na impossibilidade de conseguires adormecer na escuridão da tua casa, optas por vir para a rua onde as luzes dos candeeiros de rua e das montras de algumas lojas, fazem-te companhia ao longo do teu passeio que se calhar tem como função cansar o teu corpo para quando chegares a casa novamente, não repares na escuridão que te envolve e assim adormeceres ao longo das restantes horas que faltam para nascer um novo dia? 


Por norma não abordo pessoas que não conheço com questões, sobretudo com questões pessoais e cujas respostas possivelmente iriam criar a necessidade de revisitar memórias e passados que se calhar querem permanecer cobertos de pó e no esquecimento.
Será que outras pessoas, com dúvidas semelhantes às minhas, já vos abordaram? Não sei se sim ou se não. Uma coisa é certa, continuo a vê-los nessa vossa estranha rotina e até arranjar coragem para vos abordar, acredito que tudo se mantenha mais ou menos na mesma e sei que lamentarei o dia em que deixar de vos ver à noite por estas ruas. Talvez necessitem de algum tipo de ajuda e nem sequer vos questionei acerca disso. O que me afasta um pouco desse ultimo desassossego é o facto de saber que por vezes conversam com pessoas que supostamente conhecem e que acredito que estão mais aptas para prestarem algum tipo de ajuda.


Sábado, 28 de Abril de 2012

Pausa nas palavras


Hoje faço uma pausa e deixo as palavras de lado, hoje a sobremesa não são palavras. Talvez hoje não esteja com fome de palavras e em alternativa sinto uma vontade de ver pessoas, de saber e sentir que há pessoas nesse mesmo mundo que por opção ou por instinto, tendo a deixar de fora quando mergulho temporariamente em oceanos de palavras. Essa vontade de ver pessoas não surge do nada. Surge devido a um cansaço, um cansaço talvez visual talvez mental, talvez apenas ilusório, causado pela rotina e consequente isolamento. Surge também devido à claridade luminosa oferecida por um esplêndido dia de sol que ilumina as ruas, os passeios, os carros, as pessoas e tudo o que consegue abranger, libertando um pouco os pensamentos da escuridão imposta através das mais diversas formas de expressão. Vejo pessoas que hoje passam nestas ruas e que provavelmente nunca o voltarão a fazer. São pessoas que vêm de longe, de muito longe, de lugares que desconheço e de lugares que talvez só conheça pelo nome. Acredito que possam ter vontade de cá voltar, mas tudo dependerá das voltas que estejam reservadas para as suas vidas. Posso estar aqui sozinho, mas estranhamente há uma parte de mim que se sente mais acompanhada, é como se uma parte de mim pudesse seguir ao lado das pessoas que passam por aqui e ao mesmo tempo ficasse ao pé de mim, ao meu lado, uma parte dessas pessoas que estão apenas de passagem. Posso tentar decifrar as expressões que os seus rostos oferecem e até posso tentar imaginar origens, características, profissões, passatempos, nomes, etc, e tudo isso apenas aproveitando o que o olhar e mais alguns sentidos têm para oferecer. Entre uma dessas pessoas que caminham, há uma criança que deve ter uns 10 anos e que caminha abraçado a uma caixa de papelão de dimensões consideráveis, de dimensões que os seus braços não conseguem abraçar totalmente. Inúmeras ideias ou memórias surgem no sentido de presumir o que poderá seguir dentro daquele caixote castanho. Em tempos, um caixote daqueles poderia servir para guardar e transportar os meus brinquedos favoritos, talvez material escolar e  de desenho ou actividades semelhantes, poderia servir para transportar um gato ou um pequeno cachorro. Poderia servir para levar uma floresta de folhas verdes acabadas de apanhar e pequenas lagartixas (a que chamávamos bichos-da-seda) que se alimentavam precisamente das folhas que lhes acompanhavam e se transformavam no seu novo habitat. Em última instância, uma caixa daquela poderia servir para transportar um mundo inteiro desde que assim quisessemos. Mas hoje é dia de olhar para o mundo real, olhar para o presente, mais ou menos sem saber certezas para o futuro.

Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

Há mais de uma década



Há mais de uma década que não te via. Não te via a ti e não via a tua prima e mais umas quantas pessoas. Hoje encontrei-te, no entanto continuo sem nunca mais ter visto a tua prima e sem saber nada sobre o seu paradeiro. Não é que ela esteja desaparecida do mundo, pois é possível que ela só esteja desaparecida para aquelas pessoas que possam pensar nela e nunca mais tiveram notícias sobre ela. Certamente estará a fazer o que muitos de nós faz...viver a sua vida.
Mas voltando ao encontrar-te...Foi com surpresa que reagimos por estarmos frente a frente novamente depois deste tempo todo. Foi sem dúvida um encontro relativamente fugaz, quase um encontro de quem passa na rua e cumprimenta alguém que também por acaso trilhava aquela rua como parte de um destino ou de uma partida. Felizmente houve tempo para trocar algumas palavras, que sempre sabem melhor do que um cumprimento exprimido através de uma pergunta sem resposta, uma daquelas perguntas solitárias que já não esperam resposta. De outros tempos, ficaram-me na memória os teus traços de Van Gogh quando desenhavas. Com relativa rapidez, em gestos decididos, transformavas uma folha de papel numa espécie de obra de arte com características muito próprias. Queria perguntar-te se nos dias de hoje ainda davas uso às tuas habilidades, mas essa foi uma pergunta que acabou por ficar para trás e era uma das que mais queria que tivesse resposta. Duvido que tivesses optado por jornalismo ou algo do género, mas achei curioso tirares de debaixo do braço, ou de uma mochila, um bloco de notas e nele anotasses as perguntas que me ias fazendo e as respostas que te ia dando. A tua letra, que via nascer nas linhas do papel enquanto escrevias, quase que servia de resposta àquela pergunta que te queria fazer, no entanto, podia ser que agora fosses médico ou farmacêutico. Não sei, nem saberei até talvez podermos trocar mais algumas palavras. Queria perguntar-te sobre a vida, sobre os anos que passaram, mas após tomares algumas notas no teu caderno, optamos por seguir em frente no caminho, no qual ainda pudemos caminhar lado a lado mais um pouco, até teres chegado ao teu destino que, pensando bem, poderia ser somente mais um ponto de partida para ti. Mas isso é outra coisa que também não sei e nem saberei até talvez podermos trocar mais algumas palavras. Nessa altura poderei perguntar-te para que país ou cidade compraste o bilhete quando entraste naquela agência de viagens e eu continuei em frente no caminho que me esperava.
Entretanto continuo a guardar na memória os sons das notas do violino que a tua prima tocava e que nunca tive oportunidade de assistir, de ouvir. Guardo na memória lembranças de músicas imaginárias, de concertos por existir, de magia por acontecer. Será que ela ainda toca violino?! Nem sequer sei e se calhar só saberei quando tiver oportunidade de me cruzar com ela algures.