17.13 - A Máquina de Fazer Espanhóis - VHM



Este livro de Valter Hugo Mãe transporta-nos durante algum tempo para as vivências num lar de idosos em Portugal cujo nome, irónico [o Lar da Feliz Idade], traduz em certos aspectos, a forma como algumas das personagens acabam por ainda conseguir descobrir algumas coisas que ao longo da vida foram menosprezando...como é o caso da amizade. Assim, neste livro acabamos por acompanhar mais de perto um pequeno grupo de personagens que acabam por se relacionar com a personagem central, o Sr. António Silva, de 84 anos, que, após o falecimento da sua esposa, e amada, Laura, vai viver para o lar conforme vontade dos filhos (portanto, contra sua vontade). Um relativamente pequeno grupo de personagens, do qual fazem parte:
o Esteves (um homem que está prestes a celebrar o seu centenário e que se acredita ter sido ele a pessoa que inspirou um dos poemas de Fernando Pessoa, o Esteves da metafísica);
o Silva da Europa (sim, porque Portugal está cheio de Silvas e naquele lar existem alguns deles ... esse, o da Europa, assim chamado para se distinguir do Silva "principal", é um Silva cheio de paleio, conhecedor da política, tem sempre resposta na ponta da língua, mesma quando não precisam que se manifeste);
o Sr. Pereira (uma pessoa relativamente simples),a ultrapassar uma fase complicada;
o Anísio, dos olhos de Luz (pessoa culta, que tem o seu quarto, no lar, cheio de estatuetas religiosas e que tem como objectivo, ou propósito, deixar escrito um livro que pudesse representar o seu legado após o seu falecimento, algo de útil para a humanidade);
Para além destes principais personagens, que têm voz activa na narrativa deste livro, existem outras igualmente importantes que justificam as histórias que são contadas nestas páginas, como é o caso da D. Marta cujo marido a abandonou, mas que ainda assim ela continua a acreditar que um dia ele ainda vai ter com ela ao lar, para a visitar, enquanto isso não acontece, ela espera diariamente, e ansiosamente que, aquando da distribuição do correspondência no Feliz Idade, possa haver alguma carta para ela, uma carta daquele seu marido desaparecido....Será que isso vai alguma vez acontecer?... de qualquer forma o Sr. Silva tem uma ideia e vai tentar arranjar uma solução. Temos também o Dr. Bernardo, que acaba por ser como um conselheiro daquelas pessoas, daqueles idosos.... o Américo, um dos funcionários, aparentemente dedicado nas suas funções no Feliz Idade ... a Leopoldina que leva a vida a reclamar e a mandar os outros à merda ...enfim, uma série de pessoas vulgares e ao mesmo tem com o seu quê de especial.
Mas não, este livro não é um romance do Sr. Silva com a D. Marta. Este livro fala de muita coisa e fá-lo de uma forma muito bem feita e cativante, como, aliás, vem sendo habitual nos livros deste autor. Fala do amor, fala da vida e da morte, da forma como pode ser encarada a etapa da vida de quem acha que já está mais para lá do que para cá, os medos que vêm do passado e os novos medos que aparecem, que aparecem agora que estão numa fase da sua vida onde existem algumas restrições, sobretudo físicas e psicológicas... fala acerca do incerto, abordando ainda o tema da religião com uma certa leveza, mas ao mesmo tempo de uma forma critica e até por vezes cómica....ora não fossem aqueles idosos tornarem-se "amigos" da mariazinha que fica sem as pombinhas e mais tarde, mas por um bom motivo, fica também sem um bocado de nuvem! 

Algumas páginas do livro levam-nos de volta ao tempo do Salazar (à PIDE e à ditadura, falando na nossa condição de portugueses relativamente livres em contraste com as restrições que fizeram parte daquele tempo de Portugal), somos ainda transportados para o tempo em que Pessoa, e os seus heterónimos, eram vivos, e, como já referi quase no início, a amizade acaba também por ser um tópico que sobressai neste livro, embora isso só aconteça de forma explícita mais perto do final e, a meu ver, essa referência é feita no momento certo....no momento em que nos apercebemos que quem nos rodeia e se interessa por nós, e vice-versa, acaba por ser um membro da família, de uma nova família que não precisa de laços de sangue para assim ser considerada.
Como é habitual (ou assim me parece) nos livros de Valter Hugo Mãe, há que realçar a sua capacidade para tratar de assuntos sérios com um sentido de humor muito próprio e de forma perspicaz! É certamente mais um livro que gostei de ler e não me desiludiu, fazendo com se junte aos outros que já li deste autor. 








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