17.10 - O Remorso de Baltazar Serapião - VHM





Este foi o terceiro livro de Valter Hugo Mãe que li e mais uma vez, não desiludiu, antes pelo contrário.
Tal como grande parte das pessoas, sem treino em leituras de saramago (curiosamente este livro venceu o prémio saramago em 2007...e creio que não teve só a ver com a forma como está escrito, embora isso possa ter contribuído para tal), dei de caras com uma escrita um pouco diferente em termos de pontuação e do português propriamente dito. No entanto, após algumas páginas isso deixa naturalmente de ser um entrave e acaba por contribuir para transformar a leitura desse livro numa experiência de leitura diferente.

Muitas vezes leio a sinopse de um livro e fico com vontade de o ler...até que chega o dia de o começar a ler e nem sequer recapitulo a sinopse. Depois, é frequente acontecer acabar de ler o livro e ir ler de novo a sinopse como se tivesse o intuito de a analisar e responder à questão "será que isso corresponde ao que li?!". Isso aconteceu também com este livro e posso dizer que a sinopse acerta em cheio naquilo que se trata a leitura deste livro.

"A aventura de baltazar serapião em reboliço com os seus amores pela formosa Ermesinda, moça com quem vem a casar e por quem se atormenta de ciúmes. Este é um romance de família e de viagem, em que o estigma de se ter um nome parece explicar à sociedade quem se é e que intenções se tem.
Um romance que é também uma aventura da linguagem, friccionando um português antigo que, não o sendo de facto, cria a ilusão de estarmos ao tempo de uma idade média tardia, feita de alçapões morais e de uma brutalidade primária, sobretudo cometida contra as mulheres.
Este livro ostenta a violência a que historicamente a mulher foi sendo sujeita por uma mentalidade machista dominante. Uma violência ainda sem redenção."


 Quem já se deparou com outras opiniões acerca deste livro vai possivelmente achar que o que aqui estou a escrever acaba por ser mais do mesmo, pois por mais que se queira não é fácil vir falar deste livro e não mencionar que não nos é possível ficar indiferente perante a violência dos actos e das palavras, contra a mulheres em particular, que fazem parte deste livro. É um livro de dualidades mesmo talvez sem o querer ser, pois o seu português, aparentemente arcaico e em partes a roçar o cómico, relata coisas que de piada não têm nada, um português com toques de leveza que chega a ser cruel, que relata um amor que mais parece ódio, enfim, uma série de elementos que nos deixam entre vários contrastes. 
As mulheres certamente que ficarão felizes por saberem que [quase que] já não vivem numa época como aquela que serve de palco para a história dos Sarga (ou melhor, os Serapião). Digo quase porque apesar de haver referência a uma idade média, uma época supostamente longínqua e ultrapassada, ainda existem situações, à data actual, que não fogem muito à realidade que se vive neste livro. Pode ser um quadro pintado com outras cores e formas, mas no fundo a pintura resultante é muito semelhante. Nos dias de hoje ainda existem situações de violência, quer física, quer verbal, que são equivalentes àquelas presentes nesta história. Por mais remorsos que se sinta, o mal depois acaba por estar feito e não são os remorsos que vão alterar as coisas. Elas, as mulheres, vão se calhar sentir uma espécie de revolta pela forma como o autor se refere a elas, mas há que saber interpretar as coisas e perceber que por incrível que pareça, aquelas palavras espelham a mentalidade de uma época em parte ainda perdura. 
Apesar de ser um livro com palavras e expressões duras, como um murro no estômago, existem ocasionalmente lampejos de reconhecimento do belo, do prazer de viver, do amor que se pode sentir pelo próximo, o reconhecimento de se poder sentir saudade.

"sabe senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício, mesmo que dotadas de burrice grande ou estupidez perigosa."

"o dagoberto continuava, delicado nas suas aberturas de espírito, decidido nas acutilâncias. dava a entender sem dizê-lo, vezes em que chegou a acreditar que prazer de sexo é só esfrega de carne, e que forma de buraco, cor ou cheiro, é distinção da cabeça. parada a cabeça de pensar, qualquer esfrega dá no mesmo. até que a cabeça se intua de outras coisas e suporte sem regresso as formas, as cores e os cheiros desnaturais, preocupada com ser diferente de todas as outras. imaginem, dizia, é como gostar de coisas que nenhuma outra cabeça sequer imaginar."

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