16.11 - Chorar, as cartas e a verdade

"Caminhei pela margem do rio até à foz, sentei-me nos últimos cinquenta metros de praia que ainda existiam e estive duas horas seguidas a chorar. Nunca tinha chorado tanto em toda a minha vida. Só depois de chorar essas duas horas consegui finalmente recuperar a coragem para me levantar. Não sabia para onde ir, mas pus-me de pé na mesma e sacudi a areia que ficara agarrada às calças.
O Sol tinha-se posto por completo, mas o dia ainda não chegara ao fim. Comecei a andar. Nas minhas costas, ouvia o murmúrio das ondas."



"Escrever cartas nunca foi a minha especialidade. Sai-me sempre tudo ao contrário e confundo o significado das palavras."
"Regra geral, as pessoas que têm jeito para escrever cartas são precisamente aquelas que têm necessidade de o fazer."
"Nesta altura faz um frio terrível e estou com as mãos dormentes. Tenho a sensação de que as mãos não me pertencem. Com o cérebro passa-se a mesma coisa, também parece não ser o meu."
Tirando o frio, estou vivo e respiro saúde. E tu? Não te vou dar a minha morada, mas peço-te, não me leves a mal. Não é que seja minha intenção esconder-te alguma coisa, vê se me entendes....Se te desse a minha direcção, acredito que nesse mesmo instante algo dentro de mim mudaria irreversivelmente. Ainda que queira, não consigo explicar melhor.
Estou em crer que tu sempre compreendeste muito bem todas as coisas que eu não consigo verbalizar correctamente.O único problema é que, quanto mais e melhor tu me compreendes, menos capaz sou de me explicar. Devo ter nascido com algum deficiência cognitiva.
É claro que toda a gente tem os seus defeitos.
O meu maior defeito é que, com o passar dos anos, aumentam as imperfeições."
....
"Ainda não sei bem se estou talhado para esta vida. Da mesma forma que não sei se a chamada 'alma de nómada' é um fenómeno para durar toda a vida. Como alguém escreveu um dia, para levar uma vida de nómada por excelência são precisas três coisas - um temperamento religioso, um temperamento artístico ou então um temperamento espiritual."
....
"Também pode acontecer que eu tenha aberto uma porta que não devia, e já não esteja em condições de recuar." 
"Tal como eu disse no início (disse, não disse?), quando penso em ti sinto-me um bocadinho envergonhado. Talvez por saber que tu guardas de mim uma boa recordação, dos tempos em que eu era uma pessoa relativamente normal."
....
"- Falar com franqueza e dizer a verdade são duas coisas totalmente diferentes. A honestidade está para a verdade como a proa de um barco para a sua popa. A franqueza aparece em primeiro lugar, a verdade vem depois. O intervalo de tempo entre ambas está na proporção directa da envergadura do barco. A verdade, quando aplicada Às grandes questões, tarda em aparecer. Acontece,. por vezes, que só se manifesta depois da morte. Por tudo isso, não será culpa minha nem tua caso a verdade não venha à tona."


Estes são alguns pequenos excertos do livro "Em busca do Carneiro Selvagem" de Murakami. Podem ganhar um sentido diferente quando apresentados for do contexto em que se inserem, mas de qualquer maneira as palavras por si só, excerto ou não, falam por si.

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