A Desumanização - Valter Hugo Mãe


Já há algum tempo que planeava ler este livro mas fui adiando até que finalmente tive oportunidade de o ler. Não sabia bem o que esperar, apenas tinha lido a sinopse e tinha também uma vaga, apenas vaga, ideia deste livro ter recebido boas criticas. 
Uma vez que estava curioso em relação à história e à escrita em si, avancei para a sua leitura e o resultado foi bastante positivo. Posso afirmar que foi daqueles livros que me desse bastante prazer de ler. Gosto de livros que apesar de terem uma história relativamente simples (fala da relação ou ex-relação entre duas irmãs gémeas, em que uma delas morre(isso não é spoiler, está logo na primeira página!), e o que isso vai desencadear no seio daquela família simples que vive nos fiordes da Islândia (embora seja muito fácil por vezes imaginarmos que estamos numa simples aldeia próxima de nós quando não são dados pormenores que nos levem mesmo para a Islândia) conseguem mesmo assim tornarem-se algo grandiosos porque a genialidade da sua escrita assim os torna.
Não sei se outras pessoas serão da mesma opinião, mas em certas ocasiões parecia um pouco como estar a ler José Luís Peixoto e não refiro isso como uma comparação que tenha como objectivo valorizar um em detrimento do outro, pois cada uma das escritas desses 2 autores portugueses têm o seu lugar marcado e definido. Juntamente com eles poderia também estar Andrea del Fuego!
Neste livro podemos encontrar temas como a religião, a morte, o amor, a família, a amizade através das relações entre as personagens [não muitas, mas suficientes] e com o mundo que as rodeia, temas esses que ao longo das páginas deste livro podem até assumir um carácter cómico e com algum humor negro que fazem também as delícias de quem lê este livro.

Deixo aqui algumas passagens/pequenos excertos e não seria talvez difícil escolher mais partes do livro muito interessantes.

"Achei que a morte seria igual à imaginação, entre o encantado e o terrível, cheia de brilhos e susto, feita de ser ao acaso. Pensei que a morte era feita ao acaso."

"Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exactamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer."

"Ele insistia explicando-me que as crianças eram modos de espera. Queria dizer que as crianças não tinham verdades, apenas pistas. O seu mundo fazia-se de aparências e tendências. Nada se definia. Ser-se criança era esperar. Também significava que queria de mim admirável força sem outro sustento que não o da idade. Deixava-me à sorte, cheia de palavras estranhas cujo significado me custava encontrar."

"Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro."

"Algumas coisas, como deus, existiam sem nome. Talvez nós próprios não tivéssemos nome e andássemos iludidos com aquele que usávamos. Talvez nós próprios fôssemos outra coisa que não aquilo que nos habituáramos a pensar ser."

"A morte é a simplificação das almas. Deixa-as libertas dos infinitos pormenores do corpo. Libertas da sua vulnerabilidade. ... O corpo suja a alma."

"Eu dissera que me pus grávida sem maldade....Calava-me. Contara que crescera a barriga e que vinham dores como se os filhos aparecessem de dentro dos ossos. Sentia que me ir partir, dividir. A minha mãe, furiosa, amaldiçoando tudo, culpando-me da gula da sensualidade, acusava-me de não me ter limpa para o fardo belíssimo da...."

"Acreditava que as nuvens iam descer. Pousariam nos nossos caminhos, gordas, a tapar os lugares e a prender as pessoas em casa. Depois, as nuvens iam ficar pesadas e as casas iam abater. Até abaterem todas e as pessoas ficarem lá dentro, desfeitas em fantasmas. As nuvens comem os fantasmas."

"Eu perplexa, achava que tanta teoria e enfeite das partes intimas era como querer ter um pássaro no lugar de ter outra coisa tão diferente. Ia ser mito bom se, ao menos em algumas ocasiões, tivéssemos um pássaro em troca do rabo, um pássaro em troca do estômago, um pássaro em troca do coração. Quando nos fosse melhor, mais conveniente, daríamos por um pássaro o embaraço, a fome, o desgosto ou o medo. Talvez, por embaraço ou sonho, puséssemos às vezes o pássaro a voar."

"Pensava que os livros eram animais de barriga imensa para onde caiam os leitores, puxados por textos inquinados, maquiavélicos, feitos de malícias, maldades, mentiras, deturpações, transformações do que era certo em condutas erradas. Os livros tinham presas e dentes afiados e comiam gulosamente as pessoas."

"Prestávamos atenção às palavras para sabermos como eram dias as coisas. Porque alguns livros pareciam perfumar a linguagem outros sujavam-na e outros ignoravam-na. Os livros podiam ser atentos ou desatentos ao modo como contavam. Nós inspeccionando muito rigorosamente, achávamos melhores aqueles que falavam como se inventassem modos de falar. Para percebermos melhor o que, afinal, era reconhecido mas nunca fora dito antes. Os melhores livros inauguravam expressões. Diziam-nas pela primeira vez como se as nascessem."

"Havia na imagem desolada do casal uma resignação qualquer. Do corpo um chegava ao outro a energia única. Percebi, ..., que eram unos, mesmos, súbita e finalmente comungando de tudo como quem chegara a uma decisão, a uma conclusão.... Só um afecto maduro poderia resultar na cumplicidade que mostravam. Trancados igualmente por dentro."

"Quando passaram, vi bem visto. Teria adorado abater-me ladeira abaixo para lhes surpreender o percurso. Poderia ter nascido pedra e rolar naquele instante por pensar melhor do que andvam a pensar os homens. A brancura aparatosa da minha ...reclama a luz. Era uma lâmpada de má luz, invjeosa. Aturdindo. A minha ... estava vestida de urso feliz. Abria e fechava a boca como se lhe faltasse o ar. Como se todo o ar fosse pouco.... Um animal feroz momentaneamente a imitar a felicidade humana."

"A felicidade das coisas erradas era uma mistura de bem e de mal que deixava quem assistia num impasse, entre permitir-se seguir na diversão ou ficar preso no receio."

A desvantagem de ter sido esse "A Desumanização" o primeiro livro de Valter Hugo Mãe que li, é que esse é o seu livro mais recente...e fica a questão...será que os anteriores serão do mesmo nível e serão eles interessantes para o meu gosto tal como este foi?

Comentários

  1. São muitas as passagens que aqui colocas me dizem algo...já tive o livro em mãos mas nunca o comprei. Está mais que visto que é dos bons :-)

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    1. Sei que estás em modo "contenção" em relação a novos livros, mas se tiveres oportunidade de ler este, acho que vais gostar :-).

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  2. Eu gosto de Valter Hugo Mãe, este foi o segundo livro que li dele e tenho prometido a mim mesma fazer uma postagem sobre ele... O outro que li foi "a maquina de fazer espanhois" e recomendo.
    A escrita dele é magnetizante e chega a roçar o fantástico e o macabro de uma forma muito triste e humana e por isso considero diferente de José Luís Peixoto que também preenche as suas páginas de tristeza, mas uma tristeza saudosa e angustiada... não sei, é a minha opinião...
    ;)

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    1. Obrigado pelo comentário Margarida. Tendo em conta que gostei deste livro de VHM, irei certamente ler mais algum dele para ver se a minha opinião se mantém. Estou a ler Galveias de José Luís Peixoto e devo dizer que não está a ser tão cativante quanto esse de Valter Hugo Mãe. Claro que também são cenários e histórias muito diferentes, mas pronto.

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  3. Ainda não li nenhum livro dele embora conheças excertos e tem uma escrita muito promissora e fluída...

    De resto estes excertos deste seu último livro são brutais...
    tentador...

    abraço

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    1. Olá Daniel! Se gostaste dos excertos, e mesmo não sabendo que tipo de livros poderão agradar-te, creio que irias gostar desse "A Desumanização".
      Também nunca tinha lido VHM e foi uma boa surpresa...estava reticente, mas valeu a pena experimentar a leitura.

      Abraço.

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