Tempestade



Dentro de mim existe uma tempestade de sentimentos que tenho dificuldades em cataloga-los por serem tão contraditórios quando comparados uns com os outros. Uma revolução que me deixa desnorteado e sem saber o que pensar porque a agitação é de tal forma grande que a calma necessária para articular qualquer pensamento é escassa. Preferia obviamente estar a viver uma espécie de euforia no sentido positivo daquilo que podemos considerar uma euforia, mas infelizmente não é esse tipo de intempérie que percorre quem eu sou nesses últimos tempos.
Quero sentir alegria, felicidade, esperança (quem não queria nos tempos que correm?!), mas é difícil encontrar os motivos que justifiquem esses estados de espírito a longo prazo ou de forma duradoura. Ao invés disso sinto uma dormência de vontades que se transforma numa espécie de raiva que por sua vez se transforma numa espécie de inutilidade, incapacidade de reagir, de lutar e reivindicar qualquer coisa que nem eu próprio percebo bem o quê porque não sei qual poderia ser o ponto de partida...um sentimento de revolta, de angústia, uma quietude exterior que atiça a tempestade interior, parecendo agir como se colocasse mais lenha na fogueira onde me sinto arder cada dia que passa.
Se me perguntassem se acredito em milagres, mostrar-me ia reticente porque até testemunhar algum (sendo que entendo por milagre algo que aconteça e que realmente seja mesmo algo totalmente inesperado e imensamente positivo, capaz de solucionar certos problemas que até ao momento não estão conseguindo ser solucionados) não poderia dizer que acredito e ao mesmo tempo não poderia dizer que não acredito porque  lá no fundo existe um receio de dizer que não acredito, de dizer que eles não possam mesmo existir, pois existe também uma réstia muito ínfima de esperança de que algo menos mal ainda possa acontecer. Como se ainda pudesse haver alguma luz ao fundo do túnel. A ampulheta está virada do avesso há já muito tempo e faço um esforço tremendo para não ver os últimos grãos de areia caírem sobre o monte que se tem vindo a formar lentamente e rapidamente, como se fosse uma ameaça, como se fosse um tempo de vida que se está a esgotar. Tenho receio do momento em que irei testemunhar o último grão de areia a cair, o momento em que todos saberemos que acabou, que já não há mais nada a fazer. O momento em que me sentirei mais inútil, mais culpado, mais estúpido, o momento em que, mais do que agora mesmo, irei querer chorar palavras que não digo, palavras que se transformam em realidade nos pesadelos das horas nocturnas, sonhos agridoces que me fazem acordar e mirar as paredes escuras, o tecto silencioso, até a minha mente cair novamente no sonho na esperança de que outras imagens apareçam.

Comentários

  1. Sinto sauadades dos teus textos, do teu tao bem escrever...

    Venho desejar-te FELIZ PÁSCOA, amigo...

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