Porque Escrevo...se me transformasse em palavras

"E disse que eu não imaginava a importância das minhas palavras no mundo. Eu, rodeado de silêncio, disse-lhe que não havia palavras que me pertencessem. 
Perguntou-me o que é que eu escrevia nos livros. Respondi-lhe que me escrevia a mim. Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridículas: amor, esperança, estrelas, e nas palavras mais belas: claridade, pureza, céu. Transformo-me todo em palavras. Ele olhou-me, e tudo isto ele sabia antes de me ter perguntado."
José Luís Peixoto, em "Uma Casa na Escuridão"

Hoje, se me escrevesse, se me transformasse em palavras, seriam palavras liquidas e quentes. Um quente que haveria de arrefecer e secar com o passar do tempo e cujos efeitos poderiam ser antagónicos. Gostaria de falar de esperança como gostaria de falar de amor, gostaria de poder dedicar-me a falar de coisas ridículas e banais, falar só por falar, mas infelizmente as palavras nas quais me havia de transformar seriam escuras, dotadas de uma tristeza que não quero ver espelhada nos olhos das outras pessoas. Se me transformasse em palavras se calhar transformava-me na palavra "nada" ou na palavra "zero" mas sei que não posso porque não derivo dessas palavras, ninguém deriva dessas palavras. Por mais que se queira, custa muito não pensarmos nas palavras que nos deram origem, e por mais palavras em que nos possamos transformar, haverá sempre uma letra que faz parte das palavras que nos originaram. Afinal de contas essas palavras que desejava, ainda têm quatro letras cada.

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