Inocência: "Antes de Adormecer" e "O Quarto de Jack"

Muitas coisas na nossa vida estão sujeitas a uma dualidade de sentido, estão sujeitas a uma oscilação que nos faz balançar entre o positivo e o negativo, entre as vantagens e as desvantagens.
A ignorância (não aquela intencional ou injustificada, mas sim aquela camuflada de inocência) que é atribuída às pessoas que na gíria se podem classificar como "serem tudo o que é bom", é uma dessas coisas da vida que não escapa à tal dualidade que eu falava. Se por um lado a inocência pode ser como uma bolha protectora que nos pode servir de abrigo perante os vários perigos e diversos tipos de armadilhas do mundo que nos rodeia, por outro lado, ela talvez apenas nos garante ou faculta uma ilusão de protecção porque no fundo, pode acabar por originar o efeito oposto. 
O conforto dessa protecção pode deixar-nos mais vulneráveis, ou mais mal preparados para enfrentar a realidade. Gosto de acreditar que na dureza da realidade ainda existe bondade nas pessoas, em algumas pessoas, pessoas essas que supostamente possuem valores semelhantes aos nossos ou semelhantes aos que para nós são importantes. Gosto de por vezes manter uma certa inocência, para não dizer ignorância (porque essa parece-me ser uma palavra mais crua), no modo como observo e interajo perante certas situações, pois assim parece-me que a aspereza dos dias se torna mais suavizada. Posso estar a iludir-me, mas de certa forma tenho a noção que aos poucos essa inocência se vai transformando em algo diferente, em algo que nos faz automaticamente duvidar...duvidar de muita coisa, inclusive das pessoas (de algumas pelo menos). Se calhar quanto mais duvidarmos mais hipóteses temos de descobrir e descobrir (de forma saudável) é sinónimo de aprender e aprender equivale a sabedoria, nem que seja sabedoria da vida. 

Uma vez que trouxe aqui (penso que novamente) o tema da inocência ou ignorância (no bom sentido), aproveito para falar de dois livros que li recentemente e que de certa forma, e cada um à sua maneira, abordam esse tema. Qualquer um deles é recomendável e vale a pena ser lido, não sendo de forma alguma uma perda de tempo nem de dinheiro (em caso de compra do livro - mesmo na crise).

Um deles é o romance de estreia de S. J. Watson "Antes de Adormecer".


Neste livro encontramos a história da vida de uma jovem que acorda todos os dias no corpo de uma senhora (porque entretanto foi ficando mais velha) e na companhia de um marido que mal conhece porque a partir de um certo momento da sua vida passa a sofrer de um certo tipo de amnésia que só lhe permite guardar memórias até ao momento em que cai no sono! Assim que ela dorme, ela esquece-se de tudo novamente e é como se tivesse de recomeçar tudo todos os dias. Como é possível imaginar, ela vive num sufoco devido à ignorância em relação à sua própria vida e àqueles que fazem parte do seu mundo, o não saber o porquê das coisas leva-a a duvidar de tudo e mais alguma coisa. Seria melhor para ela ficar na ignorância e viver cada dia conforme lhe fosse possível? Talvez sim, talvez não... mas vale a pena tentar descobrir!

O outro livro, bem diferente do anterior, mas que também nos fala da inocência, é o "Quarto de Jack" ou "The Room" no original de Emma Donoghue.

Este livro leva-nos a visitar o pequeno Jack, de 5 anos (acabadinhos de fazer), que vive com a sua mãe. Uma das principais particularidades da história, do livro, é que ele sempre viveu num quarto com a sua mãe e por isso, o mundo que ele conhece, e que vamos descobrir, é um mundo com algumas semelhanças em relação ao nosso, mas ao mesmo tempo com muitas adaptações que até certo ponto acabam por ser a tal bolha protectora que eu mencionava no inicio deste post aqui no blog. Será isso algo de bom para o Jack ou nem por isso?! É impossível não sermos contagiados pela imaginação e inocência do pequeno Jack, e em certas alturas é como se também estivessemos ali fechados naquele quarto com eles, com vontade de interagir com eles e de certa forma ajudá-los. Será que algum dia conseguirão sair daquele quarto? Como seria (sobretudo para o Jack) se algum dia conseguissem sair de lá?  

Comentários

  1. Vim deixar-te votos de um Fraterno Natal.
    Um beijo

    (voltarei para te ler)

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  2. Caro Fragmentos,

    Na minha opinião, em poucas páginas, Platão com a obra Alegoria da Caverna consegue dizer tudo o que está neste livro. Até a estrutura do desenvolvimento da história é igual à sequência que Platão deu, ou seja das sombras projectadas da parede - neste romance a televisão - até há luz do sol, para no fim concluir que estamos todos presos, acorrentados, tal como estava o prisioneiro na caverna imaginada por Platão.
    Para um finalista do Man Booker Prize espera mais. Olhando para a nossa literatura e vejo livros muito melhores, como por exemplo Comissão das Lágrimas de António Lobo Antunes.
    Não estou com isto a dizer que o livro é mau, foi uma grande dissolução pois esperava mais de um livro que foi nomeado para vários prémios. (verdade seja dita, também não ganho nenhum.)

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