Naquela Janela - III

"O medo de não saber medir o poder das palavras ou o poder do silêncio quando aplicados no momento errado, o medo de não saber reagir...o medo de uma janela, daquela janela e daquele momento".


Só lhe passava pela cabeça que, naquele momento, ela pudesse desistir de si, desistir da sua vida e de tudo, porque vê-la sentada naquela janela era o mesmo que -la caminhar em direcção ao desconhecido, na direcção do abismo. Era isso que indicavam os olhos dela. A sua cara pintada com um rasto de lágrimas que não eram mais do que as suas pegadas ao longo daquela caminhada. Ele olhava para ela e tentava ir ao encontro dela através do olhar, mas as lágrimas secavam tão depressa com o vento que soprava pela janela e levava consigo o rasto das pegadas. Mas mesmo assim ele não desistia de ir ao encontro dela, ao encontro do epicentro de toda a angústia que ela poderia sentir naquele momento.

Ele sabia que aquele era o momento em que se apercebera que os seus actos não eram simples gestos e as suas palavras não eram simples sons. A partir do momento que as acções dele seriam reflectidas em alguém e nos actos de alguém, as coisas, por mais simples que pudessem ser, ganhavam outros contornos. Foi assim que ele viu que não estava sozinho no mundo como até então pensara estar. Por mais insignificante que fosse a presença dele, por mais silenciosas que fossem as suas palavras, por mais imóvel que ele permanecesse na esperança de não sentir o mundo, havia sempre algo que mudava, algo que sofreria as consequências disso. Com esse pensamento ele sentiu o medo que lhe podiam causar as acções fruto do instinto, resultantes de uma reacção espontânea, não pensada ou avaliada, e talvez o que se estava a passar naquela janela fosse o resultado de uma longa equação onde as variáveis seriam sentimentos, encontros, desencontros, certezas, dúvidas. Resultado esse que ele ainda não conseguira alcançar.

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