Esperar pelo dia seguinte

Lembro-me daqueles dias. Aqueles dias que podia esquecer, mas que não se conseguem esquecer porque deixam cicatrizes que apesar de não serem visíveis, não deixam de existir e de libertar a sua dor de vez em quando.

Tu eras tu, mas ao mesmo tempo estavas perdida no teu interior, sem rumo, sem destino e sem luz. Afinal tu não eras tu naqueles dias, eras alguém que eu desconhecia. Via-te muitas vezes e convivia contigo várias vezes, mas continuava a desconhecer-te, eras estranha e irreconhecível, parecias egoísta. Os dias... aqueles dias eram longos, monótonos e destrutivamente repetitivos e eu tinha uma idade que não era a minha porque tinha de ser adulto sem saber como. Eram dias sem vida, dias em que as plantas morriam nos vasos como se o Inverno vivesse escondido naquela terra, revolvendo tempestades que tiravam a vida a tudo que tocasse na sua cor. Elas, as plantas, morriam porque era a sua forma de encontrarem descanço.

Que caminhos percorreste? Encontraste alguém? Com quem falavas? Quem era esse alguém que te fazia mentir, que fazia afastares-te de nós e independentemente do esforço que fizéssemos parecias cada vez mais distante, difícil de alcançar... perdias-te no nevoeiro daquela rua fria e húmida e tinhamos que esperar pelo dia seguinte até regressares para perto de nós e sentires que havia muito mais vida.

Comentários

  1. Não não, de forma alguma, eu ja mais teria a pretensão a liberdade. Essa não foi feita para os humanos, eles não sabem lidar com ela.

    "morriam porque era a sua forma de encontrarem descanço"

    É assim tão lindo que se conhece a morte?

    ResponderEliminar
  2. Por vezes fica-nos encravado o ontem...quando na realidade, vivemos sempre para o amanhã...
    Texto preenchido de palavras elogiosas e soltas de tristeza desnessária.

    Muito bom

    ResponderEliminar
  3. Aqueles dias...sabem o que me veio À cabeça? Lembras-te dos dias em que falávamos dos blogues, tu criaste um, que a escrita era de certa forma um "campo" bravio e que tu aos poucos e poucos foste semeando e o resultado está à vista!

    Não sei se é ficção o que escreveste ou se há na realidade alguém que foi "aquele alguém" que tu falas mas o que interessa agora é soltar as asas desse texto!

    *Hugs n' smiles*
    Carlos

    ResponderEliminar
  4. Entendo bem estes dias de que falas.
    O tempo passa, moldando-nos, fazendo que deixemos de ser o que fomos nesses dias... se é que algumas vez soubemos quem éramos... Mas as lembranças pairam por sobre os dias de nós, por sobre o presente tempo.
    E tocar nas cicatrizes que esses dias deixaram, é sentir uma dor imensa. Porque foram dias sem vida, que nos tiraram a vida.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  5. Muito legal seus textos, preciso le-los devagar, agora não estou bem...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

16.16 - Portugal - Campeão Europeu 2016

16.14 - "Adoro" quando ... e as orelhas de elefante

16.8 - John Verdon - Peter Pan tem que morrer ... ou não