Resposta na Travessa


Durante vários minutos, olho para aquele traço preto vertical que não pára de piscar à espera que alguém decida pressionar umas teclas após pensar qual será trajecto a fazer durante o saltitar dos dedos sobre pequenas peças de plástico, como se se tratassem de pedras soltas num rio, onde a água podia ficar encarregue de trazer algumas palavras e quem sabe até frases que preenchessem todo aquele rectâgulo branco, vazio e frio.

Nesse saltitar de pensamentos por cima de letras, ou de pedras, lembro-me de uma conversa banal que de repente se torna num título escrito a vermelho e com letras a Negrito. Resultado de uma fuga de palavras que não pedem permissão para irem dar uma volta e acabam por fazer asneira, porque com a sua ideia de saírem acabam por ir buscar mais palavras que por sua vez vêm acompanhadas de pontos de interrogação, e como os pontos de interrogação são como convidados em nossa casa, que não podemos simplesmente deixá-los sozinhos na sala a verem televisão enquanto vamos fazer companhia à nossa almofada por uns momentos mais ou menos longos. Temos de fazer alguma coisa perante a sua presença porque eles só se vão embora quando lhes servimos uma boa resposta numa enorme travessa municiosamente decorada e numa quantidade suficiente para saciar curiosidades famintas.

Da mesma forma que não podemos ser os culpados por deixar as palavras irem passear sem autorização, não podemos culpar as palavras por estas trazerem companhia, pois há frases que são finalizadas com magnésio que atraem uma enorme quantidade de pontos de interrogação. Claro que de vez enquando é bom receber estas visitas, pois fazem companhia e levam consigo uma série de palavras que tinhamos guardadas e que só estavam a ocupar espaço e a fazer peso.

Lamentavelmente há aqueles dias, ou momentos, em que parece que não temos nada dentro dos nossos armários que seja suficiente para servir uma boa resposta, uma resposta que não seja apenas um aperitivo, mas sim uma refeição digna de alimentar enormes pontos de interrogação. Resta-nos servir o que temos e talvez remetermo-nos ao silêncio no meio do embarasso ou da vergonha coberta de timidez.

Comentários

  1. A minha primeira reacção ao abrir o teu blog foi rir, e sabes porquê? Porque o desenho está tão cómico, não sei se era a tua intenção mas depois li o título do teu texto e achei que ficou mesmo bem!

    As respostas são feitas de palavras, e tomara todos nós termos as travessas cheias delas.

    Temos que nos contentar com pouco, e se for mesmo muito pouco temos que pensar que a "fome" é grande quando nem uma palavra é dita.

    *Hugs n' smiles*
    Carlos

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