O meu Caderno

Há coisas que nos são oferecidas e que nem sequer as pedimos ou temos oportunidade de as pedir da mesma forma que também não temos possibilidade de as recusar e isso porque talvez já estivessem pré-destinadas a pertencerem-nos. Exemplo disso é o caderno que tenho em minha posse e que me foi dado "vazio", "em branco", limpo e pronto para ser usado desde o momento em que me foi dado, estava pronto para seguir em frente como se pudesse levantar voo com as suas asas de papel. Não é um caderno de linhas, não é um caderno quadriculado, não é uma "sebenta" e também não é somente um caderno de "música". É uma mistura de todos esses tipos de cadernos, uma mistura que é resultado do registo do espaço de tempo entre um nascer do sol e um novo nascer do sol como se isso fosse o virar de uma página, de uma folha, mover o nosso marcador e a noite fosse simplesmente a sombra de uma folha quando ela se deita sobre o passado.

Se numa folha "limpa e lisa" podemos encontrar a liberdade total dentro das suas margens, e não escrever ou desenhar um rio, mas sim um mundo, é nas folhas de linhas, pautadas, que encontramos algum apoio, alguma direcção pré-definida, como se fosse uma faixa de rodagem de uma auto-estrada em linha recta, em que somente podemos seguir naquela direcção e dentro dos seus limites como se fosse uma medida de segurança, uma barreira. Contudo há dias em que a nossa esferográfica ou o nosso lápis, ou qualquer outro material que seja adequado à cor do dia e à sua dureza, se rege pela pauta das folhas de música do meu caderno, onde cada linha da pauta é como se fosse a corda de uma guitarra e que no seu conjunto dão-nos a possibilidade de tocar as mais variadas melodias. Cada uma tem o seu próprio som porque cada dia também o tem e há que escolher que música ou músicas vamos tocar, há que escolher a banda sonora para os nossos dias, nem que por vezes estes sejam contemplados pelos gritos do silêncio. Se há cordas que são seguras e às quais podemos oferecer toda a pujança dos nossos dedos, porém há outras mais finas e que devem ser tocadas com cuidado para não acabarem como um novelo de lá atacado pela patas de um gato, mas não é por isso que deixam de mostrar a beleza do seu som, o complemento para um abrir e fechar de olhos no virar de mais uma página. Nos dias de incerteza, intranquilidade, medo do desconhecido, usamos as nossas folhas quadriculadas para seguir em frente lentamente, quadricula a quadricula, passo a passo, ao som do tempo marcado pelo cair das gotas de chuva que se atiram da ponta das telhas até ao chão como se lá esbarrassem num sorriso e abrisse a porta para dar mais um passo na direcção do nosso destino.


Infelizmente o meu caderno não tem argolas para segurar as folhas que o constituem e por isso não posso simplesmente arrancar uma folha sem que isso tenha consequências no caderno, e isto porque ficará um espaço por preencher, ficarão histórias ou rascunhos incompletos, ficarão fragmentos de uma folha a marcar algo que deixou de existir e como existe uma razão para tudo o que existe, iria ser necessário outras razões que justificassem a sua inexistência.


Neste momento o meu caderno tem cerca de 9125 páginas preenchidas e não sei quantas mais terá por preencher, mas infelizmente há algumas que já estão extremamente velhas que mal dá para ver o que lá está escrito ou rabiscado. Vou agora continuar a desenhar na página que virei hoje.

Comentários

  1. Todos nós temos um caderno! E há dias que queremos que alguém nos ajude a virar a página aonde estamos, noutras vezes só temos vontade de fechar o caderno, e escondê-lo na estante atrás dos nossos livros favoritos.

    Neste momento o meu caderno não anseia por nada, talvez quando sentir a ponta da esferográfica mude de ideias…

    *Hugs n' smiles*
    Carlos

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