Cabeça de Vidro

Lia num texto de Al Berto algo sobre um homem que tinha uma cabeça de vidro e isso fez-me imaginar algumas coisas que daí podiam resultar! E se na realidade também passeassemos com cabeças de vidro, transparentes e expondo-nos como se estivessemos numa vitrina? Será que isso transformava as pessoas em pessoas melhores, eliminando o esconderijo de todo o entulho que ocupa o pensamento delas?! Mas será que queriamos estar nus perante toda a gente, expor tudo o que temos e que nos pertence até à mais pequena migalha?! Parece-me que não, pois se isso acontecesse perdiamos a nossa própria personalidade e o nosso lugar de viver. É por isso que partilhamos aquilo que achamos que temos de bom para o fazer e normalmente as coisas passam por um filtro antes de serem embaladas e entregues. Quando isso não acontece é porque a partilha não teve origem na cabeça de vidro, mas noutro local. Talvez na 'Laranja' como irão ler no texto que deixo abaixo. Mas nesse texto pode-se encontrar muito mais que isso!
Vou parar aqui senão tinha muito por onde andar e hoje está apetecendo descansar um pouco.

"Conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
Víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema
planetário.
víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos
dedos. O latejar do tempo na humidade dos lábios.
E a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. As
estrelas mortas das cidades imaginadas.
Os ossos [tristes] das palavras.

A noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça
transparente.
Em redor dele chove.
Podemos adivinhar uma chuva espessa, negra, plúmbea.
Depois, o homem abre a mão, uma laranja surge, esvoaça.
As cidades (como em todos os livros que li) ardem. Incêndios que
destroem o último coração do sonho.
Mas aquele que se veste com a pele porosa da sua própria escrita olha,
absorto, a laranja.

A queda da laranja provocará o poema?
A laranja voadora é, ou não é, uma laranja imaginada por um louco?
E um louco, saberá o que é uma laranja?
E se a laranja cair? E o poema? E o poema com uma laranja a cair?
E o poema em forma de laranja?
E se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema? A ficar louco?
[...]
E a palavra laranja existirá sem a laranja?
E a laranja voará sem a palavra laranja?
E se a laranja se iluminar a partir do seu centro, do seu gomo mais
secreto, e alguém a [esquecer] no meio da noite - servirá [o brilho] da
laranja para iluminar as cidades há muito mortas? E se a laranja se
deslocar no espaço
- mais depressa que o pensamento, e muito mais devagar que a laranja
escrita
- criará uma ordem ou um caos?

O homem que possui uma cabeça de vidro habita o lado de fora das
muralhas da cidade.
Foi escorraçado.
[E] na desolação das terras, noite dentro, vigia os seus próprios sonhos
e pesadelos. Os seus próprios gestos - e um rosto suspenso na solidão.

Onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua alma, no seu
sexo, no seu coração?
E se escreveu laranja no coração, a alma ficará saborosa?
E se escreveu laranja no sexo, o desejo aumentará?

Onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do
poema - a Vida, sem mais nada - estará aqui?
Fora das muralhas da cidade?
No interior do meu corpo? ou muito longe de mim - onde sei que possuo
uma outra razão...e me suicido na tentativa de me transformar em poema
e poder, enfim, circular livremente."

Comentários

  1. Não me desagrada de todo a ideia das pessoas terem cabeça de vidro. Assim, saberíamos com o que contar. O lado mau é que ficaríamos expostos, vulneráveis... É horrível a sensação de não fazer ideia do que vai na mente daqueles que nos estão próximos por motivos que não sejam de sangue. Aliviava o meu espírito e acalmava-me o coração ter certezas.. Mas se calhar assim a vida perdia algum encanto, não?

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  2. Não vou aqui desenbrulhar o que seria ter uma cabeça de vidro...mas em relação a essa ideia há um grande senão porque conheço pessoas que se tivessem uma cabeça de vidro, ela já estaria despedaçada...fico com a minha, pode estar rachada mas nunca seria tonto de bater com ela vezes sem conta nas paredes de cimento!

    "O latejar do tempo na humidade dos lábios."
    Deve ser então essa a explicação para as vezes que os lábios ficam humidos, até eles sentem as coisas...um latejar sublime, ao de leve na película que os cerca.

    "Os ossos [tristes] das palavras."...se isso fosse possível passava o tempo que pudesse abraçado às que mais me dizem, como não o posso fazer resta-me deixá-las sairem de dentro de mim com o vento que sopra do norte e leva tudo à frente...mas o problema é esse não levar tudo à minha frente!

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